Núcleo Bartolomeu de Depoimentos lança manifesto em defesa da sede

O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos – Teatro e Hip Hop é um coletivo artístico que desenvolve pesquisa continuada há 14 anos na cidade de São Paulo na linguagem pioneira de Teatro Hip-Hop. Ao longo de todo esse tempo o coletivo contribuiu para a vida artística da cidade, através de seus espetáculos tão premiados, oficinas, debates, músicas e poesias.

Hoje o Núcleo corre o risco de perder a sede em que realiza seu trabalho desde 2006, que fica na rua Doutor Augusto de Miranda, 786, Vila Pompéia, sem receber qualquer reparação.

Desde o dia 15 de agosto o “Manifesto em defesa do Território-artístico Cultural”, escrito pelo grupo em resposta à atual situação, está circulando nas redes sociais.

Compartilhamos o manifesto:

“A Arte de sediar existência Manifesto em defesa do território artístico-cultural.

Já é bastante difícil viver em uma sociedade que iguala o direto à vida ao direto à propriedade. Viver em uma sociedade onde, segundo a lei, liberdade e propriedade são garantias igualmente invioláveis sem nenhuma distinção.

E é bem pior (ou muito mais arriscado) quando o direito à propriedade se transforma na eliminação de todos os outros direitos. Quando um “negócio” vira a mercantilização da vida. Quando um “empreendimento” significa expulsão, exclusão. Quando “incorporar” é sinônimo de destruir o patrimônio cultural comum. Quando um apartamento é justificativa para apartar.

O pleno exercício dos direitos culturais e artísticos (e suas formas de expressão) é garantia constitucional e considerado em sua natureza material e imaterial. Faz parte do rol que convencionou-se chamar de patrimônio cultural brasileiro.

Não é possível que o direito aos bens de mercado privado de poucos sejam mais importantes que o patrimônio cultural de muitos.

Sem cultura não há sociedade. Sem memória não há o que partilhar.

Nós, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, dizemos não a esta lógica indigesta e convocamos um debate público sobre qual é a forma e de que maneira podemos proteger a memória e as formas de criação estética materializadas no território cultural dos espaços–sedes dos coletivos artísticos da cidade de São Paulo.

No nosso entender, não é admissível que os grandes empreendimentos imobiliários destruam o patrimônio cultural dos grupos e sua troca com a cidade, e não proponham nenhum tipo de reparação.

É inadmissível que os empreendimentos cheguem como um “aparato invasor” e não dialoguem com o entorno ou com seus ocupantes. Não há negociação. Há, sim, expedientes que privatizam a discussão, apartando a sociedade e a cidade do debate e alijando os moradores de seu próprio bairro.

É preciso perceber que o que está em jogo é a cidade que queremos. Toda vez que se fecha um espaço artístico, um projeto de interesse público morre em detrimento de um projeto de interesse privado (que prevalece, modifica todo o entorno e sumariamente destrói, naquele território, a troca entre a cidade e a arte, apagando a memória e a criação estética/política daquele lugar).

Qual é o projeto de cidade destes empreendimentos?

Qual é a função social dessa arquitetura?

Qual é o diálogo que existe entre a história do território e esses “prédios”? E, sobretudo: O que a cidade recebe em troca de tal iniciativa?

É de notório conhecimento que o ato de permutar materializa a troca de uma coisa por outra. De toda forma, este ato passou a se mostrar como uma ferramenta eficiente de mascarar a falta de respeito ao direito de preferência de todo e qualquer inquilino, impossibilitando, mesmo que de forma ínfima, a resistência à destruição.

O que está em jogo é uma cidade.

Diante de tudo isso e, sobretudo, por acreditar que a pólis ainda é possível, que a rua é mar sem fim e que a cidade é o espaço comum para o convívio dos diferentes, nós, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, afirmamos publicamente que iremos abrir o diálogo com a sociedade através de eventos públicos na nossa sede e em seu entorno, e que mesmo diante das ameaças de despejo permaneceremos aqui, na tentativa de garantir a nossa existência.

Vamos publicamente exigir reparação para que tudo não seja visto apenas como uma “questão de mercado” e que os territórios artísticos culturais possam existir em sua plenitude.

TER SEDE É SEDIAR NOSSOS SONHOS

TER SEDE É TER SEDE POR TRANSFORMAÇÃO

TER SEDE É CONSTRUIR O IMAGINÁRIO CONCRETO

TER SEDE É TER ONDE POUSAR

“Por que não existe outro pouso nem outro lugar de sustento…”

Acreditando que a melhor maneira de lidar com o conflito é torná-lo público, convocamos a quem se sentir tocado a se juntar a nós nesta Odisseia.

Quem sentir verá. Quem sentir será.”

Att.

Núcleo Bartolomeu de Depoimentos

O grupo também está promovendo uma série de atividades de debates e resistências, que podem ser acompanhadas através do Flyer:flyer_bartolomeu

Fontes: Facebook do grupo: https://www.facebook.com/nucleobartolomeu

Acervo do Programa Municipal de Fomento ao Teatro – Projeto do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos 23ª edição (junho de 2013).

Autoria do texto: Bianca Gomes Landim (Programa Municipal de Fomento ao Teatro)

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